SINTONIA COM A MARA - Covid-19 e o bem e mal que se escondem em cada ser

Ilustração/Reprodução Facebook

A pandemia da Covid-19 expõe outros males guardados no ser e ocultados dele próprio. O problema não se restringe aos riscos de contaminação, condições econômicas e questões práticas do cotidiano. O 'vírus' da quarentena atravessa as fronteiras do inconsciente e coloca o sujeito em contato com aspectos desconhecidos de sua personalidade. Traz para o mundo real um emaranhado de sentimentos, armazenados nos porões, por toda a sua existência.
As medidas de proteção física manifestam, para muitos, aspectos insuportáveis do convívio. O ritmo frenético da vida os mantiveram distantes de tudo, de todos e deles mesmos por tanto tempo que a proximidade se tornou estranha. O sem-número de afazeres serviram de desculpas para a negligência afetiva e mal jeito no tratamento consigo e com outros. Tratou de colocar sentimentos conflitantes no plano da negação.
Forçado a conviver intimamente, o sujeito precisa encarar-se. Cessados os ruídos da rotina estafante, o oculto revela-se. Nunca foram apresentados, mas sempre esteve lá, desde a infância se alimentando de medos. Agora, criado e desconhecido, o pavor vem dar as caras, dizer coisas indesejáveis, exigir satisfações.
O que dizer para si daquilo que não se sabe? O que fazer com essa consciência intrusiva? A ignorância se utiliza da irritabilidade e raiva como estratégias de ação. Sem desculpas para si, o outro se torna o bode expiatório - espelho para o fracasso afetivo convertido em sucesso profissional.
O medo da pobreza, da vida, da morte, impotência, da doença, rejeição e do julgamento social impulsionaram o fazer, ter, comprar, trabalhar, gastar, exibir, pagar, calcular, investir, conferir, dormir, acordar e começar tudo de novo. Estas foram as regras até então.
Era preciso negar. Negar a fragilidade, a sensibilidade, compaixão, ternura, o amor, a humanidade. Fingir que o outro é problema dele. Que lute, mesmo sem armas. Acreditar na mentira. Orar por saúde e sucesso para poder comprar condições dignas de adoecer. Fazer o bem de foto para escamotear o mal de fato. Gastar doçura na rua e destilar o fel em casa. Tornar os medos intangíveis.
Agora chega a nova Covid-19, não nova, modificada. Essa presença invisível vem dizer quão frágil é a vida e tão forte é a morte. Essa coisa, definida por letras e números, traz a noção de existência efêmera. Não existe, aqui, a eternidade para se conhecer e perceber o outro, corrigir os erros e transformar a realidade. O tempo é agora. Sempre foi e sempre será.
A desconstrução de ilusões é insuportável. Faz-se necessário voltar às velhas preocupações, esquivar-se do pensar, esquecer quem somos e o que tememos. É urgente voltar a adiar, para nunca, as possibilidades de fazer e se fazer melhor.
Caso o colapso externo persista, a transformação do ser será inevitável. E, nem todos estão preparados para contemplar-se desnudos de suas vestes fantasiosas. Nem todos estão dispostos a um salto existencial.

Mara Lúcia Madureira - Psicóloga e palestrante


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